sexta-feira, dezembro 03, 2010

Contribuição da ciência na elaboração de teorias racistas no séc.XIX, e seus efeitos nas relações raciais no Brasil



Maria Auxiliadora de Paula Gonçalves Holanda *

Introdução
Algumas reflexões sobre o que nos revelam os dados - Os quesitos raça/cor ganham espaço nas pesquisas.
O Brasil é um país de grandes contrastes sociais e desigualdades resultantes de um longo período de colonização e exploração das populações indígenas e negras. Ainda hoje as conseqüências do regime escravocrata persistem mostrando estatísticas nas quais essas populações aparecem em grandes desvantagens em relação aos brancos. Essas constatações hoje já começam a ser aceitas pelos governos, e medidas de equalização dos quadros de desigualdades começam a serem tomadas.
É necessário e urgente que a garantia dos direitos fundamentais como saúde, educação e trabalho, seja efetivada com justiça, de forma que as camadas desfavorecidas da sociedade brasileira possam ter um aumento significativo de qualidade de vida. Algumas ações governamentais têm sido implementadas nesse sentido, dentre as quais podemos citar a obrigatoriedade de 50% de mulheres nas candidaturas para cargos públicos eletivos(1), e políticas de trabalho direcionadas para portadores de deficiências físicas(2).
Os movimentos sociais como um todo, sobretudo os feministas, negros, e de jovens, tiveram uma participação decisiva nessas ações desde o momento inicial de pressão política, passando pela sua elaboração, execução e monitoramento. A criação de secretarias governamentais para tratar especificamente dessas políticas é uma prova concreta da mobilização e força dos movimentos sociais e da sociedade civil de uma forma geral.
Embora alguns avanços sejam identificados, a base das desigualdades persiste. Conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD, 2006), a população entre 7 e 14 anos do Norte-Nordeste continua apresentando as menores taxas de escolarização. As mulheres na idade entre 5 a 17 anos apontam um percentual maior de freqüência à escola que os homens, respectivamente 92,4% para 91,9%, sendo que o aumento ocorreu em todas as regiões. No Norte-Nordeste a taxa de analfabetismo das mulheres foi menor que a dos homens. As mulheres possuem em 2006, em média, mais anos de estudo completos que os homens. A participação das mulheres no mercado de trabalho e na freqüência à universidade também cresce em relação aos homens, no entanto o tipo de ocupação no trabalho e os salários são inferiores aos dos homens, o que evidencia a persistência das desigualdades.
Quando nos referimos aos itens "cor" ou "raça", os dados da PNAD (2006) atestam que, dos 15 milhões de analfabetos brasileiros mais de 10 milhões são pretos e pardos, apresentando mais que o dobro na taxa de analfabetismo em relação aos brancos, ou seja, 14% contra 6,5% para os brancos. Já com relação à freqüência à universidade, os brancos correspondem a 56%, e pretos e pardos 22%, mas esses dados são verdadeiramente alarmantes quando passamos a perceber qual a porcentagem de pretos e pardos que conseguem concluir a graduação em relação aos brancos. Da população de 25 anos ou mais que concluíram a graduação em 2006, temos um total de 8,6%. Desses 8,6% que concluíram; 78% são brancos, 16% pardos, e apenas 3,3% de negros.
Estas estatísticas nos mostram claramente a necessidade e urgência de ações afirmativas e cotas que garantam o acesso e permanência da população negra na universidade. Das políticas de ação afirmativa já implementadas, o sistema de cotas foi o que mais envolveu a opinião pública e mobilizou setores da sociedade civil. Muitas universidades estaduais e federais(3) já iniciaram políticas e programas de democratização do acesso e permanência de índios e negros, cada uma de acordo com as suas especificidades regionais e com embates políticos diferenciados.
Raça e relações raciais
Muitos desafios têm contribuído para o avanço dos estudos sobre as relações raciais no Brasil, e estes se apresentam em conjunturas sócio-históricas diferentes, de acordo com o dinamismo das relações que se constroem a cada época. Portanto, dado a brevidade de nosso texto, destacaremos apenas alguns desafios mais pertinentes à compreensão de nosso objeto. Queremos no entanto destacar a influência que o pensamento cientifico opera sobre o imaginário social e de como as idéias racistas ainda hoje repercutem.
Hasenbalg (1979) faz um interessante comentário crítico às teses de Florestan Fernandes (1965) apresentadas em seu texto: "Integração do Negro na Sociedade de Classes". O primeiro autor fundamenta sua crítica ao segundo com base, sobretudo, em Stanislav Andreski (1969 apud HASENBALG, op. cit., p. 76), quando este afirma: "Uma vez que uma superposição bem definida de raças passa a existir, cria-se uma situação em que é bastante racional para seus beneficiários tentar perpetuá-la".
O autor não concorda com Florestan Fernandes (1965, p. 75) quando este considera que "[...] parece provável que as tendências dominantes levarão ao estabelecimento de uma autêntica democracia racial." (FERNANDES apud HASENBALG, 1979, p. 75). De acordo com o que apresenta Hasenbalg (op. cit.), Fernandes (op. cit.) considera que, uma democracia racial autêntica implica que negros e mulatos devam alcançar posições de classe equivalentes àquelas ocupadas por brancos, o que nos parece correto. Ainda de acordo com o autor, Fernandes (op. cit.) acreditava na gradativa transformação das relações raciais no Brasil, à medida que o modelo econômico fosse sofrendo mudanças de um perfil arcaico para outro mais moderno e democrático. Este autor acreditava que os comportamentos preconceituosos e racistas acabariam por desaparecer, o que na verdade não ocorreu, pelo contrário, as desigualdades persistem, em grande parte em conseqüência da discriminação, do preconceito, das idéias racistas que continuam vivas na contemporaneidade.
Com base nas posições de Hasenbalg (1979) no que se refere à permanência de uma sociedade desigual, mesmo após a abolição, e considerando os efeitos perversos e ainda permanentes do longo período de escravidão, situaremos nosso texto no momento mais recente das discussões sobre relações raciais. Atualmente busca-se com as políticas de ação afirmativa, se busca uma justiça racial concreta, da forma como pensou Fernandes (1965), ou seja, onde negros ocupem status social equivalente aos brancos.
Estudos de relações raciais no Brasil
Guimarães (1999) destaca que as primeiras compreensões de raça estavam relacionadas às características físicas das populações nativas dos vários continentes. Os estudiosos atribuíam qualidades morais, intelectuais e psicológicas de acordo com os atributos físicos das populações. De acordo com esse autor, estas teorias racistas sustentaram aspirações imperialistas e geraram grandes tragédias o que levou os cientistas a negarem este conceito de raça. Houve uma substituição do termo raça por "etnia" (Ibidem).
Conforme declara Telles (2003) a respeito das teorias racistas do século XIX surgidas na Europa e amplamente assimiladas e divulgadas no Brasil, a idéia de raça é conceitual e não um fato biológico. Embora as teorias de superioridade da raça branca, que ganharam um status científico no século XIX, tenham sido desacreditadas, elas continuam firmemente enraizadas no pensamento social (Ibidem). Para Pessoa (1996), o conceito de raça é comparativo, e para se reconhecer uma raça é necessário estabelecer um contraste com outra semelhante ou diferente. A esse respeito o autor traz sua compreensão com base no conceito de raciação, conforme podemos ver a seguir:
Como a raciação é um processo longo e contínuo que vai produzindo raças dentro de raças, o grau de diferença entre as raças varia. Comparada com a população alpina, a população nórdica é uma raça menor (não muito distinta), mas, em relação aos pigmeus africanos, é uma raça maior (muito diferente). (Ibidem, p. 30).
O autor traz em seu texto além de noções de miscigenação e de raças modernas, um perfil da doutrina racista e alguns dos postulados do racismo(4), dentre os quais ressaltamos os seguintes:
- As raças puras são superiores umas às outras e todas são superiores às miscigenadas.
- Para o bem da humanidade, as raças superiores devem dominar as inferiores e usá-las para funções subalternas (Ibidem).
Ainda de acordo com Pessoa (1996, p. 30), abolir a palavra raça em virtude do racismo e de suas graves conseqüências, não foi uma boa iniciativa, pois "[...] não é lutando contra palavras que venceremos preconceitos".
Costa (1989) apresenta uma compreensão distinta da de Pessoa (op. cit.) com relação à importância do uso do termo raça. O autor considera que até os anos 30 do século XX o conceito biologizante de raça serviu para hierarquizar segmentos da população. A partir dos anos 70, o conceito ganha outra importância. O autor apresenta as oscilações desse conceito na história, e ressalta que:
Quando, nos finais dos anos 70, o movimento negro retoma o conceito raça com um sentido político, opera-se, portanto uma inversão semântica fundamental na categoria usada historicamente para subjugar negros e outros não brancos. Não se trata, contudo, de um racismo invertido, como se grupos negros quisessem afirmar alguma distinção biológica essencial ou sua superioridade relativamente aos não negros. O que se tem é uma estratégia política de delimitação e mobilização dos grupos populacionais que, em virtude de um conjunto de características corporais, continuam sistematicamente discriminados. (COSTA, 1989, p. 151).
Com relação à "luta contra palavras para vencer preconceitos" da qual Pessoa (1996) discorda, podemos afirmar que as palavras não são vazias, e ganham sentidos dentro de um contexto sócio-histórico e político. A academia -lugar por excelência da elaboração de conceitos- trabalha manipulando-os segundo os seus interesses. Portanto, é necessário refletir sobre quem detém o poder intelectual e político de disseminar o conhecimento e fabricar conceitos.
O movimento negro passou a utilizar o termo raça como instrumento político para reafirmar a existência do racismo no nosso país, fortemente enraizado nas instituições e nas formas como estas trabalham as relações no cotidiano. As palavras que denotam o preconceito, os estereótipos e a discriminação, demonstram o perfil racista do Brasil. As palavras fazem parte de uma ideologia pouco percebida, simbólica e discursiva, contra a qual a luta é também com palavras(5). O lugar da palavra, da escola e da universidade tem grande responsabilidade sobre a continuidade dos pensamentos racistas.
Nascimento (2003) considera que raça é um conceito que traz implícito em sua compreensão dimensões culturais e históricas, justificando a necessidade de se abandonar o uso do temo "etnia", conforme explicação a seguir:
Já que a noção de raça como origem e ancestralidade incorpora as dimensões de história e cultura sem remeter ao essencialismo biológico, perde o sentido a proposta de sua substituição pelo eufemismo "etnia". Ademais, no processo de resistência à discriminação, constata-se a necessidade de reconhecer as realidades sociais criadas a partir dos critérios discriminatórios. Como lutar contra o racismo se negarmos a existência das "raças" e, portanto, da discriminação racial? (p. 50).
A autora supracitada considera que, entre racismo e etnicismo, o termo derivado de raça é imediatamente identificado com o fenômeno discriminatório e, portanto, pode ter capacidade mobilizadora. "Etnia", na visão da autora, é um termo que não atinge o imaginário social, e nesse caso, seria uma luta com arma discursiva impotente, segundo o pensamento de Pessoa (1996).
O ideal de branqueamento no Brasil
Antes da criação do mito da democracia racial no Brasil(6), que considerou a convivência entre as três raças formadoras do povo brasileiro como algo positivo, existia no Brasil um outro ideário amplamente divulgado pelas ciências médicas, jurídicas, filosóficas, e outras, com fortes influências das idéias de eugenia divulgadas na Europa(7). Esse ideário configurado nas teorias racistas do século XIX(8) consistia na crença de que, a miscigenação era uma aberração, uma verdadeira degenerescência da espécie humana. O ideal seria que as raças fossem puras. As raças inferiores, as negras principalmente, não poderiam se misturar às superiores, e os brancos que cometessem essa imprudência eram castigados. A mistura de raças originaria um ser humano inferior.
Da mesma forma como interessou a uma elite branca esse pensamento, a reinterpretarão positiva de miscigenação alardeada de forma muito inteligente nos anos 20 e 30 também assegurou a continuação do domínio dessa elite sobre a população negra e índia. Skidmore (1976, p. 192) esclarece que "[...] os anos 20 e 30 no Brasil viram a consolidação do ideal de branqueamento e sua aceitação implícita pelos formuladores da doutrina e pelos críticos sociais".
A dificuldade dos negros, de se reconhecerem como tal, e de perceberem como se tornam negros está implícita na construção científica da idéia de que a miscigenação com brancos melhoraria as supostas qualidades inferiores da raça negra. Os efeitos dessas teorias têm reflexo até o momento atual em nossa sociedade, atingindo as dimensões do desejo de crianças, jovens e adultos de se aproximarem ao máximo dos valores cultivados pelos brancos.
Reiteramos que a escola enquanto instituição por excelência, da palavra, da comunicação, da construção da sociabilidade entre crianças, jovens e adultos, figura como uma das principais mantenedoras desse pensamento racista. Na escola são lidos os textos que foram produzidos por esses escritores, dentre eles um que, até hoje é leitura central nas escolas: Monteiro Lobato, escritor excelente do ponto de vista da técnica, da criatividade, mas que apresenta para os professores questões para serem refletidas com os leitores infantis e juvenis. Apresentamos essa reflexão, pautada nos estudos de Skidmore (1976), quando este coloca a importância que tiveram os escritores na formulação desses ideais de branqueamento. Ele cita a participação de muitos estudiosos(9) que elaboraram idéias dessa política de branqueamento e coloca Gilberto Freyre como um dos principais cientistas na construção dessas idéias.
Por traz da idéia de uma convivência harmônica entre as raças, parecia existir o propósito de eliminar pouco a pouco a população negra tida como inferior, e desta vez, não pela violência, nem pelos maus tratos próprios da escravidão, mas por um princípio científico amplamente divulgado e inculcado no imaginário social. De que forma combater idéias racistas e todas as formas de preconceito, estereótipos e discriminação, se todos acreditavam no seu desaparecimento, sendo assim tidos como idéias arcaicas, como coisas do passado?
Conforme Skidmore (1976), o escritor Monteiro Lobato(10) teve uma ascensão expressiva no cenário da literatura brasileira da época devido à divulgação desse ideal de branqueamento através de seus livros e de matérias jornalísticas. Em carta que Lobato escreveu a um amigo podemos perceber a dimensão dos valores diferenciados que este escritor atribui às raças:
Num desfile, à tarde... perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas - todas menos a normal... Como consertar essa gente? Que problemas terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança! Talvez a salvação venha de São Paulo e outras zonas que intensamente se injetam de sangue europeu. Os americanos salvaram-se da mestiçagem com a barreira do preconceito racial. Temos também aqui essa barreira, mas só em certas classes e certas zonas. No Rio, não existe. (LOBATO, 1944 apud SKIDMORE, op. cit., p. 199).
Andréas Hofbauer (2003), em seus estudos sobre as bases ideológicas do racismo brasileiro, confirma que o racismo que ainda hoje persiste nas relações sociais é fruto não só de uma construção científica, mas também jurídica. Havia uma cobertura legal, reforçando a legitimação das práticas de branqueamento. Hofbauer (op. cit.) citando João Batista Lacerda (1912) afirma que:
[...] ainda no Estado Novo, Getúlio Vargas justificaria a assinatura de um decreto-lei (1945) que devia estimular a imigração européia com as seguintes palavras: "Há necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características básicas mais desejáveis de sua ascendência." (LACERDA, 1912 apud HOFBAUER, op. cit., p. 89).
Parece assim ficar claro que, as construções do conceito de raça e das idéias sobre racismo estão envolvidas em um processo político ideológico no qual os interesses de uma minoria branca dominante se sobrepunha.
Para Costa (2002, p. 44) "[...] não se trata de uma ideologia racial, mas de uma ideologia nacional(11), com múltiplas dimensões." O autor considera que, em sua dimensão política, a ideologia construída na nação brasileira a partir de 1930 assimilou o modelo francês. Ele declara que a ideologia da mestiçagem comporta as dimensões de gênero, social, cultural, e racial. Sobre a dimensão de gênero implícita nas idéias de mestiçagem, e afirma:
Tanto no trabalho de Freire quanto no âmbito do esforço consistente de institucionalização de uma ideologia nacionalista de institucionalização de uma ideologia nacionalista no Estado Novo, reifica-se a imagem da mulher sem subjetividade própria e sem vida cívica e políticas autônomas; nesse construto, a mulher realiza-se e se completa enquanto objeto do desejo masculino. (Ibidem, p. 44).
É interessante observar como as artes, ciências e letras contribuíram para fortalecer esse pensamento com relação a um tipo feminino sensual e objeto do desejo masculino. Ficaram célebres os personagens femininos criados pelo escritor Jorge Amado, traduzido para muitas línguas e levado para o cinema e as telenovelas. A música, a pintura, e a poesia, também contribuíram para formatar uma imagem de mulher brasileira, "tipo exportação" que faz parte desse construto tão abrangente sobre o qual o autor se refere.
Embora considerando que o mito da democracia racial começa a se desconstruir nos anos 1950, Costa assegura que as desigualdades continuam com a modernização, e coloca a importância do combate ao racismo com medidas específicas de ação afirmativa, com o desenvolvimento dos estudos raciais, dentre outras medidas, sejam de procedência brasileira ou não (Ibidem).
À Guisa de Conclusão
Acreditamos que, a Universidade como lugar por excelência da elaboração do pensamento, colabora de tempos em tempos com uma hegemonia de determinada razão cientifica que se cristaliza no âmbito da academia e repercute no pensamento da sociedade. A ressonância dessas idéias no imaginário social é também disseminada. Esse movimento de construção de idéias que advém das pesquisas na ciência pode muitas vezes ser uma encomenda das agências financiadoras das investigações para privilegiar determinados interesses.
De acordo com a história da filosofia da ciência, é inerente ao pensamento científico a sua transformação, a sua falseabilidade (POPPER, 1902) as mudanças de paradigmas (KUHN, 2003) ou até a sua desconstrução.
A ciência está fadada a ser ultrapassada, muito embora o seu desenvolvimento não se dê de forma inteiramente nova, mas sim com base no que já foi pensado.
O que queremos destacar é que no caso das teorias racistas do século XIX as idéias científicas se estabeleceram reforçando a idéia de superioridade de uma raça sobre outra, assim como para justificar também os domínios econômicos, sociais e políticos de brancos sobre as demais raças.
A universidade brasileira hoje, por ocasião do debate em torno das ações afirmativas passa a rediscutir a origem e desenvolvimento dessas idéias racistas. Podemos perceber o quanto ainda repercutem nos sentimentos e comportamentos das pessoas, sendo a família e a escola em todos os níveis, a nosso ver, algumas das principais agências responsáveis pela reprodução do preconceito, da discriminação e do racismo.
Muitas Universidades no Brasil já experimentam o sistema de cotas, e já podem avaliar essa política, desde 2004, quando a primeira Universidade Federal, a UnB faz o seu primeiro vestibular. Os resultados são positivos, sendo o mais significativo a entrada de negros em cursos de médio e alto prestigio como Medicina, Direito, Arquitetura, Psicologia, Engenharia, por exemplo.
A Universidade Federal do Ceará, a pedido do Ministério Público e através de um grupo de professores iniciou reflexões sobre a implementação de uma política de acesso e permanência das populações mais desfavorecidas socialmente, camadas nas quais se encontram pretos e pardos (negros) de acordo com a classificação do IBGE. Infelizmente o então Reitor, na gestão vigente ainda neste ano de 2010, se mostrou contrário à política de cotas. Ademais, apesar dos esforços envidados por alguns professores na gestão anterior, assim como na atual gestão, a proposta de cotas para negros, índios e pobres da escola pública, foi fragorosamente derrotada.
Esta é uma política que vem mobilizando não somente a reflexão da comunidade universitária, mas também os movimentos sociais e a sociedade como um todo, pois comporta no âmbito de suas principais discussões, questões fundamentais relativas aos direitos humanos do cidadão. Nas universidades nas quais vem sendo implementadas políticas de ação afirmativa, estas vêm apresentando bons resultados como na UnB, UFBA, UFMG, mas sem dúvida a que mais cria polêmica são as cotas para negros.
A UFC, rejeitando essas políticas, reflete o senso comum, pois no Estado do Ceará é cristalizada a idéia de que não existem negros, mas somente índios e mestiços, ou seja: moreninhos, mulatos, marrons, ou outras tantas nomenclaturas atribuídas às pessoas negras como se isso atenuasse a qualidade ruim de dizer-se negro ou negra. As pessoas negras, aquelas que estão nessa gradação de cor entre pardos e pretos, em geral não se reconhecem como negros, porque ser negro significa ser inferior, sujo, suspeito, marginal, etc. Essas são idéias comuns e corriqueiras que se pode perceber diariamente no imaginário social. Hoje, alguns historiadores vêm procurando desconstruir algumas idéias da história oficial que afirma não ter tido escravidão negra no Ceará, e, portanto, que essa cultura da negritude e da africanidade não existe nesse estado. Na verdade, para o Ceará vieram menos negros se compararmos a estados como Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Maranhão, o que não significa que desvalorizemos, e criemos um silêncio e uma negação dessa cultura para invisibilizá-la. Sabe-se que até hoje há comunidades quilombolas no Ceará que precisam ser reconhecidas e amparadas em seus direitos.
A postura da universidade só dificulta esse reconhecimento deixando essas populações em situação muito precária na sua qualidade de vida. Os jovens quilombolas, assim como os demais negros pobres da escola pública, têm direitos à ascensão social e esta com certeza poderá acontecer se pleitearem uma vaga na universidade. Essa é uma responsabilidade da sociedade como um todo, mas, sobretudo, das instituições de ensino superior.
BIBLIOGRAFIA:
GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Racismo e anti-racismo no Brasil. São Paulo, Fundação de apoio à Universidade de São Paulo/ Editora 34, 1999.
FERNANDES, Florestan. A Integração do Negro na Sociedade de Classes. São Paulo: Dominus, 1965HASENBALG, Carlos Alfredo. Estrutura Social, mobilidade e raça. Editora Revista dos Tribunais Ltda, São Paulo: Edições Vértice, 1988.
______; DO VALLE SILVA, Nelson. Relações raciais no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Rio Fundo Editora/ IUPERJ, 1992.
HOFBAUER, Andréas. Conceito de "Raça" e o ideário do "Branqueamento" no século XIX. Teoria e Pesquisa, São Paulo: Universidade Federal de São Carlos, n. 41- 42, jan./jul. 2003.
KUHN, Thomas S.- A estrutura das revoluções científicas, www.editora perspectiva.com.br. São Paulo, 2003.
LOBATO, Monteiro. A Barca de Gleyre: quarenta anos de correspondência literária entre Lobato e Godofredo Rangel. São Paulo: [s.n.], 1944.
NASCIMENTO, Elisa Larkin. O Sortilégio da cor: identidade, raça e gênero no Brasil. São Paulo: Summus, 2003.
PESSOA, Oswaldo Frota. Raça e eugenia. In: SHWARCZ, Lilia Moritz; QUEIROZ, Renata da Silva (Orgs.). Raça e diversidade. São Paulo: Estação Ciência/ Edusp, 1996.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As teorias raciais, uma construção histórica de finais do século XIX. In: ______; QUEIROZ, Renato da Silva (Orgs.). O contexto brasileiro São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo/ Estação Ciência: Edusp, 1996.
SKIDMORE, Thomas E. Preto no Branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1976.
SODRÉ, Muniz. Claros e Escuros. Identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis: Editora Vozes, 1999.
POPPER, Karl R. A Lógica da investigação cientifica. São Paulo, Abril Cultural, 1980.
TELLES, Edward. Repensando as Relações de Raça no Brasil. Teoria e Pesquisa, São Paulo: Universidade Federal de São Carlos, n. 41- 42, jan./jul. 2003.
______. Lei nº 9100 de 19 de setembro de 1995. Trata das eleições municipais de 1996, estabeleceu o percentual mínimo de 20% de candidatas mulheres nas listas dos partidos políticos e coligações. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 12 out. 1995. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/leis/L9100.htm>. Acesso em: 20 abr. 2005.
Notas:
(1) "A lei nº 9.100/95 expressamente instituiu o percentual mínimo de 20% de mulheres candidatas às eleições municipais do ano de 1996, com o objetivo de aumentar a representação das mulheres nas instâncias de poder. Posteriormente, a lei nº 9.504/97 aumentou o percentual para 30% (ficando definido um mínimo de 25%, transitoriamente, em 1980, estendendo a medida às outras entidades componentes da Federação, e também ampliando em 50% o número de vagas em disputa)." (BELCHIOR, 2006, p. 23).
(2) De acordo com o art. 37, VIII da Constituição Federal, deverá ser reservado um percentual dos cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência, definindo os critérios de sua admissão.
(3) Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Estadual do Mato Grosso (UNEMAT), Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), dentre outras.
(4) O autor faz rico levantamento sobre questões sobre como as raças se formam e se desfazem, e sobre eugenia. Ver mais em Schwarcz e Queiroz (1996).
(5) Jean Paul Sartre (1978) fala também da importância de se dar sentidos e significados novos as palavras de acordo com nossos interesses (interesse dos negros) Com relação à palavra "negro" por exemplo, Sartre (op. cit., p. 94) diz: "[...] o negro não pode negar que seja negro ou reclamar para si esta abstrata humanidade incolor: ele é preto. Está pois encurralado na autenticidade: insultado, avassalado, reergue-se, apanha a palavra ‘preto’ que lhe atiram qual uma pedra; reivindica-se como negro, perante o branco, na altivez."
(6) Conforme Costa (2003, p. 45), "[...] o mito que persistiu desde os anos 30 e que parece ir se desconstruindo a partir dos anos 70 é o da brasilidade inclusiva e aberta, capaz de integrar em seu interior harmonicamente as diferenças."
(7) Ver mais em Skidmore (1976, p. 70-80).
(8) Schwarcz (1996) faz um interessante estudo sobre teorias racistas com base em telas a óleo, gravuras, xilogravuras do século XIX. A autora também apresenta as teses da medicina legal de Lombroso, do psiquiatra Nina Rodrigues, dentre outros que, procuraram comprovar que quem apresentava traços negros ao nascer teria tendências a serem bandidos, marginais perigosos, loucos. Essas teorias justificam as idéias de eugenia.
(9) Muniz Sodré (1999), estudando a questão da identidade nacional, fala de uma referência clássica do Abolicionismo, o intelectual Joaquim Nabuco, e de uma afirmação proferida por este, mostrando o nível de eurocentrismo do seu pensamento.
(10) Sodré (op. cit., p. 86) traz afirmação de Monteiro Lobato, segundo ele, um "racista confesso" no qual este revela: "Só a imigração e a conseqüente fusão de sangue superior trará uma aptidão congênita para o progresso."
(11) Sodré (1999) cita inúmeros brasileiros ilustres de todas as áreas que contribuíram com a formação dessa identidade nacional, dentre eles: Nina Rodrigues (psiquiatra), Euclides da Cunha (escritor), Cassiano Ricardo (poeta e escritor), Silvio Romero, Oliveira Viana (sociólogo), Farias Brito (filósofo) entre outros.

* Mestra em Educação, UFC

sábado, novembro 20, 2010

20 de Novembro:-Consciência Negra e Consciência Branca

A  Consciência Negra e minha Consciência Branca


Cara a Cara com o Racismo
Ao falarmos em Racismo pensamos de pronto em atos de violência física, agressões verbais, hostilidades explícitas em relação ao outros [s] de origens raciais distintas das nossas.
Tais comportamentos representam os extremos da conduta racista , fatos que repudiamos, e provocam revolta e indignação, todavia, este o Racismo que se coloca explicito diante de nós, ainda que bárbaro ,é tão somente a sua manifestação pública. O Racismo tem dimensões mais amplas e de forma silenciosa permeia nosso  dia a dia ,subliminarmente, em muitos atos – aparentemente inócuos , mas que provocam e estimulam a exclusão de uma grande maioria de cidadãos ,simplesmente por sua origem racial.
Em verdade, devemos reconhecer que o caminho a trilhar no combate a discriminação ainda é longo, e não basta nosso repúdio calado para extinguir de forma definitiva todas as ações racistas que reinam no Brasil . É preciso mais, urge avançar com passos firmes contra todo tipo de discriminação. O fenômeno exige políticas e estratégias que fomentem a Igualdade , sem retóricas populistas, sem falsetes políticos, que apenas mascaram uma proposição efêmera de promover a Igualdade.  
Carecemos sim, de construir consciências individuais e coletivas, capazes de lutar pela conquista da Igualdade de fato e de direito, lavando e enxaguando a Máscara do Racismo, maquiada na face de considerável parcela da sociedade:- primitiva e xenofóbica.
Que as Instituições de Ensino atuem neste mister, que o Governo se posicione agressivamente com metas consistentes, que cada Indivíduo seja ator nesta empreitada de construir um Mundo Novo, onde todos possamos vivenciar nossos Direitos Constitucionais, e a plena Cidadania seja verdade :-para mim, para você, para todos, independente de Classes, Credos ou Etnias.
Construindo este novo cenário social, seremos capazes de vivenciar a Fraternidade, o Respeito Mútuo, e a Igualdade nas relações sociais.
Que sejam banidas e severamente punidas as ações excludentes e abjetas-vigentes, a enlamear a Cara do Brasil.
Legitimar a Igualdade é dever de todos, é o alicerce magno para construção de nossa condição de Humanos.
Nesta data emblemática, ergo aos céus uma prece:
                                            -Que Deus perdoe nossa torpe ignorância branca!



anadeabrãomerij
[Brasileira-filha das Minas Gerais, Professora Universitária, Fundadora e Editora de Literacia]


sexta-feira, novembro 19, 2010

Zumbi, Comandante Guerreiro da Democracia


Oscar Henrique Cardoso (*)


Me chamou a atenção ao verificar a postagem de um internauta falando sobre o que ele sabia ou pensava sobre Zumbi dos Palmares. A referência feita por este brasileiro, usuário da Internet, me fez pensar em um detalhe que pode ainda mais reforçar a importância de Zumbi dos Palmares na construção da história democrática brasileira. O fato citado por ele fez referência a Zumbi como o primeiro "líder socialista de fato que o Brasil já conheceu".

Zumbi dos Palmares não só foi o comandante guerreiro, o líder da resistência dos quilombolas de Palmares. Zumbi dos Palmares implantou na Serra da Barriga um modelo social o qual todos nós perseguimos: um modelo social que proporciona a todos os cidadãos a divisão compartilhada da produção e das riquezas, o debate democrático sobre os destinos de uma comunidade e também a auto-estima dos seus moradores. No caso que falo, os quilombolas que se abrigavam em Palmares tinham orgulho de lutar por um ideal de liberdade, contra a escravidão e o domínio imperialista da coroa portuguesa.

Palmares não está somente viva nos livros históricos e também viva na Serra da Barriga, a qual inúmeros peregrinos e militantes do Movimento Negro subiram no último dia 20 de Novembro. Zumbi foi o líder de uma revolução social a qual todos nós sonhamos. Uma revolução que não queremos que se faça pelas armas, mas sim pela construção de um processo cidadão, o qual dê aos negros brasileiros e aos mestiços, o direito de nascer, crescer, viver e morrer em um país digno. Digno por cada um de nós ver resultados concretos e efetivos nos sistemas públicos de saúde, educação, moradia e trabalho e renda.

A nação que Zumbi construiu em Palmares foi em minha opinião, sem dúvida, um modelo de sociedade democrática e igual. Fugitivos das senzalas encontravam em Palmares um espaço para desenvolver sua formação cidadã. Uma construção democrática coletiva, onde o direito de ser e de viver era plenamente respeitado. Uma antítese aos tempos de escravidão.

O gosto de ver nas ruas deste país a celebração da população negra em razão ao dia 20 de Novembro me faz promover a seguinte leitura. Nós negros queremos ver a sociedade que Zumbi constituiu no Quilombo de Palmares implantada. Nossa população, jovem ou mais velha, ainda deseja assistir a uma partilha de bens iguais dentro de nossa sociedade. Partilhar bens se reflete em dar acesso a negros, pardos e mestiços uma educação de qualidade, a um serviço de saúde que contemple as nossas especificidades raciais e a um pleno desenvolvimento de trabalho e renda para os negros que vivem no campo e nas grandes cidades.

Nosso herói Zumbi dos Palmares não foi só um herói abolicionista. Foi também o herói de toda uma parcela da nação brasileira que não concordava com a escravidão imposta pela coroa portuguesa. O sonho de liberdade que Zumbi implantou na Serra da Barriga era também o sonho de inúmeros abolicionistas, que desfilavam em meio à aristocracia o desejo de ver o fim da chibata. Hoje os negros brasileiros esperam derrubar uma versão moderna da chibata. A versão da invisibilidade.

A luta é árdua, mas estamos conseguindo começar a nos organizar para deixar para as novas gerações os ideais de igualdade e democracia que foram perseguidos por Zumbi dos Palmares. Ele foi um herói de verdade. Ele fez no seu quilombo o Brasil que todos nós sonhamos. Verdadeiramente Zumbi foi o nosso herói, pois deu sua vida pela igualdade racial e social em um Brasil Colônia que era explorado e usurpado de suas riquezas.

Ao voltar a falar sobre este mail que declarava Zumbi como o primeiro líder socialista já conhecido de fato pelo Brasil, me faz acreditar que a importância de Zumbi em nossa história foi muito maior do que simplesmente lembrar dele como mártir. Zumbi foi construtor, mesmo que por um curto espaço de tempo, de um Brasil para o futuro. Um país onde todos sonhamos que um dia existirá. Nosso compromisso é trabalhar para que a imagem de Zumbi dos Palmares não fique configurada apenas nos livros didáticos como mais um herói. Este negro guerreiro deve sim ser lembrado como um cidadão pleno, um empreendedor, construtor de um quilombo que serviu não só de resistência à escravidão. Palmares foi sim o nosso primeiro modelo e exemplo de sociedade democrática, onde todos os fugitivos e não fugitivos exerciam a plenitude da democracia.


(*) Oscar Henrique Cardoso, natural de Porto Alegre/RS é jornalista, radialista e atual assessor de Comunicação Social da Fundação Cultural Palmares/Ministério da Cultura, em Brasília/DF. È responsável pela execução de projetos em Comunicação Social junto ao Governo Federal, voltados para a cultura e a história afro-brasileira. Edita o Portal da FCP/MinC e o blog A CASA DO OSCAR.

Palmares - Passado e Presente
 


A Relação Afetiva entre o Homem e a Mulher na Poesia dos Cadernos Negros


Esmeralda Ribeiro
       Segundo o historiador Décio Freitas, no Quilombo dos Palmares "a insuficiência de mulheres gerou conflitos violentos, às vezes sangrentos, em torno da posse de mulheres. Para preservar a coesão social, instituiu-se o casamento poliândrico. União da mulher com até cinco maridos, todos viviam no mesmo espaço físico, no mesmo Mocambo".
       É consensual a opinião sobre a existência de uma diferença em relação a como o homem e a mulher contemporâneos encaram a relação afetiva amorosa e, mesmo que o amor não esteja ligado exclusivamente ao casamento, a situação de escassez de mulheres é elucidativa. Podemos partir daí, dando ênfase para a situação de casamento poliândrico em Palmares, para tentar pensar como esse relacionamento afetivo amoroso mais desreprimido se refletiria hoje na poética feminina e masculina.
       A poesia é o melhor instrumento para polarizarmos entre o passado e o presente porque:
"O poeta vê a própria interioridade na qual se reflete, retrata o mundo", afirma o escritor e jornalista Fernando Paixão.
       Relendo as poesias dos Cadernos Negros tive algumas inquietações: quem com esse passado acumulado mostra na poesia uma afetividade prazerosa? E, quem, afetivamente, desceu o "morro", isto é, quem em seus poemas não reflete a afetividade que os Palmarinos devem ter possuído? É o escritor ou a escritora negra?



       Na poética amorosa masculina é forte a imagem da sedução, da afetividade. Amor e erotismo se fundem numa coisa só:
BENÇÃO DAS ÁGUAS


Deveria ser pleno
é mínimo
cinza
úmido
no ápice de um feriado
um dia nublado


A plenitude por dentro
desejo
o que eu queria
surpresa
o sol não veio
e ganho a benção que chove


Deusa das águas, ela deixa o chuveiro
e se instala na sala de minha retina
ela e sua toalha-turbante
perfeita sereia mesmo longe d'areia
Que sorte eu aqui tão perto
no meio do dia e das águas nubladas
a sedução ao vivo
lábios
olhos
a tez
e o verdejante turbante
coquetel de cores
tesão por todos os poros
no mínimo, o máximo
domingo total
no qual mergulhei de cabeça.
      (Jamu Minka, in Cadernos negros 19)
       A metáfora Sereia ilustra bem o poder de sedução que a mulher exerce sobre o homem. A excitação sugere a iminência do ato sexual. Ele está disposto a se entregar de corpo e alma. Na poética masculina o desejo do "amor infinito" é colocado sem nenhum pudor no papel:
CANTO À AMADA


Não fosse sua boca um luar
E seus olhos
Cintilantes estrelas
Não fossem suas mãos
Perfumadas pétalas
E teus braços
Um leito acolhedor
Não fosse sua vida minha vida
E teu corpo minha inspiração
Ainda assim te adoraria
E te chamaria: meu amor
Pois a ti eu pertenço
Como a própria pele...
     (Márcio Barbosa, in Cadernos negros 5 )
       "As oferendas", "os cantos", dão metaforicamente a sensação de que eles nunca estão sós. Para isso regam a planta do amor: para que se enraíze em seus corações:
OFERENDA PARA A MINHA AMADA


O vento soprou uma semente
leve como uma pluma
linda como uma estrela!
E ela caiu e penetrou de mansinho
nas terras desertas do meu coração
No meu peito nasceu uma planta
que está crescendo lentamente
E todas as manhãs
eu a rego carinhosamente
com sonhos e atitudes


Sinto a cada dia que passa
que as raízes
penetram mais fundo
na medula do meu ser
Levando-me a cantar com alegria
porque é grande a magia
que está encantando o meu viver!
E aguardando ansioso
o tempo da colheita
no "sim" do teu coração


Passo dias e noites torcendo
que flores e frutos brotem
para ofertá-los a ti, Vida
     (Oubi Inaê Kibuko, in Cadernos negros 7)


       Na poética feminina negra a afetividade caminha junto com a dor. A escritora trabalha com o sentimento do "infinito enquanto dure", embora ela não se entregue de corpo e alma. A porta da emoção precisa ser aberta. Ela dificilmente cultua no poema a imagem do homem que a seduz. Se o cheiro dele agradar, ele vem e jazz... Mas a porta da emoção continua fechada, então ela o deixará escapar entre os dedos. Seria como apanhar a água do rio com as mãos:





FLUIDA LEMBRANÇA


No líquido do copo
entorno a sua fluida
lembrança.
Bebo aos goles
o seu doce caldo
armazenado e curtido
em minha memória
e, quando depois
me erro nos passos
inebriada dos meus enganos
toco o vazio de sua ausência
percebendo, então
que você me escorre dos sonhos
Tal qual a baba indomável
que da boca do bêbado sonolento
escapa.
      (Conceição Evaristo, in Cadernos negros 18)
Ela impõe limites, porém o homem que conseguir ultrapassar esses limites vai encontrar uma mulher que expõe a sua solidão:
LIMITES


Abro as minhas portas e
a conformidade das suas coisas vem
numa adequação de causa e efeito.
Fecho minhas portas e
confusamente, as suas coisas vão
numa inadequação de solidão e desrespeito
Diante das inconformidades das minhas coisas.
     (Regina Helena, in Cadernos negros 9)
       Quando o homem abre a porta da emoção - e por insensatez deixa marcas, sofrimentos, - se ele retornar é para fechar as feridas. Daí ele descobrirá que ela não havia dado todas as chaves para ele:
...NO REGRESSO


No dia em que retornares
provavelmente me encontrarás
entre a pia e o fogão.
Antes que tua boca te anuncie,
procurarei retirar a gordura densa
nas banheiras anunciadas na tevê.
Usarei o xampu que dará
mobilidade aos meus cabelos
farei teatro em tua presença.
Te convencerei de que minha disposição
é a mesma, te envolverei de tal forma...
farei morrer de inveja a melhor das atrizes.
Carregarei de ternura o teu coração
quero que me embales!
Deixarei deitares teus lábios nos meus
grossos e banhados em veneno doce
farei com que bebas através deles minha alma
e que nos consumamos os dois


Te carregarei para o inferno
em que minha vida transformaste.
   (Sônia Fátima, in Cadernos negros 19)


       Há muito a pesquisar, mas na poética afetiva masculina a porta está sempre aberta, o poeta diz "ela me seduz, vou mergulhar de cabeça, vou pertencer a ela como a própria pele, vou regar o amor todos os dias", mostrando a dualidade força/fragilidade. Isso nos remete a Palmares. Os homens eram fortes enquanto guerreiros. Mas lá talvez houvesse a fragilidade afetiva porque, para ter uma mulher ao lado, eram levados a conflitos sangrentos pela pose da amada.
       
       A presença da mulher deu estabilidade social e familiar a Palmares. As condições sociais foram responsáveis pela implantação do modelo de família poliândrica. A consequência desse modelo deve ter sido, para a mulher, uma certa "liberdade amorosa", de poder estar com dois, três ou até cinco homens vivendo sob o mesmo teto. Como afirma Décio Freitas, "os homens eram obedientes à mulher, que mandava em sua vida e no trabalho".
       Concluo que essa condição possibilitou à mulher Palmarina viver uma vida de prazer relativo, apesar do estado permanente de guerra contra os senhores de escravos. A mulher Palmarina pôde escolher com qual dos parceiros ela teria os seus filhos, pôde escolher, entre os parceiros, aquele que a levaria ao desejo de na cama colar em seu corpo como tatuagem, numa harmonia de corpos, aquele que a levaria de colo para uma infinita paixão. Na afetividade amorosa era a mulher Palmarina que tinha todas as armas e também o poder de seduzir e de querer ser seduzida. Mas a poética feminina não herdou nada dessa "liberdade amorosa" de suas ancestrais nos textos. Destruíram Palmares e destruíram também seu prazer amoroso. A poética feminina não tem nada a ver com o que deve ter sido o passado histórico afetivo das mulheres Palmarinas. Agora a história é outra. O sentimento militante feminista predomina em sua poética. Ela deixa bem explícito que as portas não estão mais abertas. Seus sentimentos estão sempre em guarda. É preciso saber tocar o interfone dos sentimentos. Ela avisa ao homem que ele não encontrará uma mulher submissa e sim uma mulher que decide pelo seu próprio corpo, uma mulher que decide sobre suas vontades. Ela falará tudo isso de uma forma dura e às vezes fria, são poucos os poemas nos quais o homem a seduz. Pode-se citar uma raridade. Um poema sem título:
Meu Zumbi
De corpo suado
De olhos meigos e doces
De boca ardente...
Nenhuma paisagem se iguala
à visão que tenho de você
Explosão de raça em forma de ser
o que mais quero:
Entrelaçar nossas peles retintas
Me animar de vida,
Buscar meu céu em sua terra
Saciar minha sede de mel em seu mistério.
Tatuar-te em meu corpo
para ter a certeza de tê-lo
preso-colado-filtrado em mim
na própria pele
rasgando a epiderme
que nem laser apaga
que aos poucos me rasga
e se fixa e me marca
num uno indivisível
     (Lia Vieira, in Cadernos negros 15)
       No geral, a mulher desceu do "morro", porque Amor romântico não combina com feminismo. A todo momento ela tem que mostrar poeticamente que é forte, só os fortes ganham a batalha, ganham o poder. Ela não permite expor seus desejos românticos sobre uma folha de papel. Está ocorrendo uma inversão de papéis, agora os homens são escassos, são as mulheres que, metaforicamente, têm de guerrear para ter um parceiro, talvez seja por isso que, na poética feminina, a dor e solidão são retratadas constantemente. Ao mesmo tempo em que ela quer ter um parceiro, ela também quer medir forças com ele. Ela não abaixa as guardas, é um elo que não se quebra. Poeticamente são os homens que querem um relacionamento duradouro, eterno e as mulheres um amor infinito, nem que seja por um dia ou por alguns segundos.


       Para terminar: a poética masculina continua na Serra da Barriga, eles herdaram dos seus ancestrais o deleite, sentem o prazer pela amada com tanta intensidade como em Palmares. Quem sabe por ter que dividir com outros homens a atenção da mesma mulher, seu amor expresso na poesia é harmonioso, um amor na mesma sintonia, é constante a imagem de rolar na cama, chegando ao êxtase total. Amar é bom demais e por isso eles realizam, concretizam no papel, lindíssimos poemas de amor.
***
Esmeralda Ribeiro é escritora, jornalista e faz parte do Quilombhoje desde 1982. Tem atuado no sentido de incentivar a participação da mulher negra na literatura. Publicou "Malungos & Milongas", conto, em 1988. Tem poemas e contos publicados em diversas antologias no Brasil e no exterior.


Bibliografia Citada
Cadernos Negros 5 (org. Cuti). São Paulo: Ed. dos Autores, 1982 (poemas)
Cadernos Negros 7, 9, 13 e 15 (org. Quilombhoje). São Paulo: Ed. dos Autores, 1984, 1986, 1990 e 1992 (poemas).
Cadernos Negros 19 (org. Quilombhoje). São Paulo: Quilombhoje: Ed. Anita, 1996 (poemas).
FREITAS, Décio. Palmares - a guerra dos escravos. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982.
PAIXÃO, Fernando. O que é poesia. São Paulo: Brasiliense, 1982.

domingo, novembro 14, 2010

20 de Novembro -Dia Nacional da Consciência Negra

Zumbi dos Palmares, o maior ícone da resistência negra ao escravismo no Brasil


Vinte de novembro é o Dia Nacional da Consciência Negra.

I.
A data - transformada em Dia Nacional da Consciência Negra pelo Movimento Negro Unificado em 1978 - não foi escolhida ao acaso, e sim como homenagem a Zumbi, líder máximo do Quilombo de Palmares e símbolo da resistência negra, assassinado em 20 de novembro de 1695.






[Quilombo dos Palmares]

O Quilombo dos Palmares foi fundado no ano de 1597, por cerca de 40 escravos foragidos de um engenho situado em terras pernambucanas. Em pouco tempo, a organização dos fundadores fez com que o quilombo se tornasse uma verdadeira cidade. Os negros que escapavam da lida e dos ferros não pensavam duas vezes: o destino era o tal quilombo cheio de palmeiras.

Com a chegada de mais e mais pessoas, inclusive índios e brancos foragidos, formaram-se os mocambos, que funcionavam como vilas. O mocambo do macaco, localizado na Serra da Barriga, era a sede administrativa do povo quilombola. Um negro chamado Ganga Zumba foi o primeiro rei do Quilombo dos Palmares.

Alguns anos após a sua fundação,o Quilombo dos Palmares foi invadido por uma expedição bandeirante. Muitos habitantes, inclusive crianças, foram degolados. Um recém-nascido foi levado pelos invasores e entregue como presente a Antônio Melo, um padre da vila de Recife.

O menino, batizado pelo padre com o nome de Francisco, foi criado e educado pelo religioso, que lhe ensinou a ler e escrever, além de lhe dar noções de latim, e o iniciar no estudo da Bíblia. Aos 12 anos o menino era coroinha. Entretanto, a população local não aprovava a atitude do pároco, que criava o negrinho como filho, e não como servo.

Apesar do carinho que sentia pelo seu pai adotivo, Francisco não se conformava em ser tratado de forma diferente por causa de sua cor. E sofria muito vendo seus irmãos de raça sendo humilhados e mortos nos engenhos e praças públicas. Por isso, quando completou 15 anos, o franzino Francisco fugiu e foi em busca do seu lugar de origem, o Quilombo dos Palmares.

Após caminhar cerca de 132 quilômetros, o garoto chegou à Serra da Barriga. Como era de costume nos quilombos, recebeu uma família e um novo nome. Agora, Francisco era Zumbi. Com os conhecimentos repassados pelo padre, Zumbi logo superou seus irmãos em inteligência e coragem. Aos 17 anos tornou-se general de armas do quilombo, uma espécie de ministro de guerra nos dias de hoje.

Com a queda do rei Ganga Zumba, morto após acreditar num pacto de paz com os senhores de engenho, Zumbi assumiu o posto de rei e levou a luta pela liberdade até o final de seus dias. Com o extermínio do Quilombo dos Palmares pela expedição comandada pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, em 1694, Zumbi fugiu junto a outros sobreviventes do massacre para a Serra de Dois Irmãos, então terra de Pernambuco.

Contudo, em 20 de novembro de 1695 Zumbi foi traído por um de seus principais comandantes, Antônio Soares, que trocou sua liberdade pela revelação do esconderijo. Zumbi foi então torturado e capturado. Jorge Velho matou o rei Zumbi e o decapitou, levando sua cabeça até a praça do Carmo, na cidade de Recife, onde ficou exposta por anos seguidos até sua completa decomposição.

“Deus da Guerra”, “Fantasma Imortal” ou “Morto Vivo”. Seja qual for a tradução correta do nome Zumbi, o seu significado para a história do Brasil e para o movimento negro é praticamente unânime: Zumbi dos Palmares é o maior ícone da resistência negra ao escravismo e de sua luta por liberdade. Os anos foram passando, mas o sonho de Zumbi permanece e sua história é contada com orgulho pelos habitantes da região onde o negro-rei pregou a liberdade.

II.
Registros Históricos sobre Zumbi dos Palmares

[Pintura de Debret- Escravos carregando café]
Durante as invasões holandesas no Brasil, muitos escravos aproveitaram as ocorrências para fugirem dos cativeiros e das senzalas em que viviam. Após as fugas reuniam-se nas fraldas da Serra da Barriga, no Estado de Alagoas. Quando juntavam um número maior de fugitivos, eles formavam repúblicas, que, segundo alguns historiadores, a mais importante foi a República dos Palmares ou  (Quilombos).
Assim como em cada segmento da sociedade sempre existe uma liderança, no caso dos escravos um recebeu destaque, pelas várias façanhas que protagonizou.
Foi “ZUMBI”  valente e destemido chefe do Quilombo dos Palmares.


Esses africanos e seus descentes fugitivos utilizavam a capoeira para se defender de seus perseguidores, entre eles os capitães do mato, ou também expedições chefiadas por capitães que recebiam ordens dos senhores de engenho para capturá-los. Como eles não usavam armas, lutavam  corpo a corpo usando os praticantes da capoeira.

 
Os africanos e seus descendentes souberam transplantar numa coexistência dialética singular, o conjunto civilizatório que permeou toda a sociedade brasileira em organizações e associações.
Com o fim da escravidão, esta luta foi bem assimilada pela sociedade atual. Em 20 de novembro estava consagrado como data de celebração da consciência negra. Em 1965, o Quilombo dos Palmares fora destruído, e o seu líder, Zumbi, morto e decapitado, passava para a história como símbolo de um dirigente político negro que lutou até o último suspiro contra a escravidão. Ganga Zumba, seu antecessor, acreditou na possibilidade de uma negociação justa com as autoridades coloniais. A paz de Ganga era a derrota do quilombo. Ele desceu a serra com os seus seguidores, colocou-se na beira da praia sob a tutela dos senhores dos escravos e renunciou à luta contra a escravidão, entregando aos senhores os escravos recentemente liberados no quilombo e recusando-se a aceitar qualquer outro fugitivo. Seu destino foi triste. Faminto, reescravizado, traído, Ganga Zumba morreu.
Zumbi disse não. Reuniu todos os mocambos, fortificou a sede de Palmares e preparou a resistência ao governo da Capitania de Pernambuco. Alguns militantes e historiadores, como Joel Rufino dos Santos, se perguntam por que Zumbi e o povo de Palmares resolveram abandonar a velha tática de guerilhas, pela qual há 100 anos - desde 1595 - "circularam em uma rede de mocambos precários que, uma vez destruídos por ataques dos escravos, rapidamente se refaziam adiante e continuavam a luta. Por que Zumbi preferiu a guerra de posição: fincou pé na Serra da Barriga, fortificou-se e resolveu enfrentar cara a cara o inimigo? Os palmarinos tinham clareza da superioridade militar do inimigo, reunificados após a expulsão dos holandeses, vitoriosos na reconquista de Angola aos holandeses e na guerra contra o reino cristão do Congo. Se assim era, fincar pé em Palmares era morte certa, era suicídio. Hoje, mais de 300 anos depois, a resposta é evidente. Naquele tempo era possível ter esperança. Ousar lutar, ousar vencer, por que não?
O que cabe a nós, cidadãos e historiadores de hoje, é a pergunta: o que havia de tão valioso que justificava a ousadia temerária daqueles palmarinos? A mesma pergunta pode ser feita em relação aos malês da Bahia. Por que, em vez de fazerem mais um levante para sair da escravidão, como os mais de dez que o precederam na Cidade do Salvador, resolveram fazer uma revolução escrava? A leitura atenta da obra de João José Reis mostra que os malês tinham consciência de que era preciso conquistar a Cidade do Salvador, abolir a escravidão, inverter as hierarquias sociais, para enfim poderem viver plenamente o Islã em liberdade. No caso de Palmares, há evidências de que os quilombolas entenderam que era o momento de parar de fugir e assegurar a consolidação de uma cidade-Estado em que fosse possível a vida em liberdade.
Para melhor compreendermos essa opção política, é preciso ver em Palmares muito mais do que um refúgio de escravos. Ao longo de 100 anos de resistência, os palmarinos construíram um território amplo, formado por vários mocambos ligados em rede. Várias foram as gerações nascidas em Palmares, fora da escravidão. Elas formaram um povo palmarino, sem o trauma da derrota originária da escravização em África e sem vivência da escravidão no Brasil, com a capacidade de absorção e re-culturação dos fugitivos da escravidão, negros e índios, além dos brancos excluídos da sociedade açucareira. A guerra permanente contra a escravidão soldava a solidariedade do povo em torno de uma identidade quilombola. Além de território, povo e identidade, desenvolveu-se em Palmares um modelo de economia auto-sustentável, regulada por instituições sociais de justiça e de governo. Portanto, estava em curso um processo de formação de um estado nacional multiétnico, fundado na cooperação do trabalho livre e organizado a partir das referências culturais africanas. Esta foi a primeira formulação de um projeto de estado nacional brasileiro, em um momento em que a sociedade colonial portuguesa, mesmo após a vitória de Guararapes contra os holandeses, estava inteiramente empenhada na reconquista da África e na reconstrução do Império Atlântico Português.
Zumbi fincou pé em Palmares e aceitou a guerra de posição para defender a possibilidade de um Brasil livre, liderado por africanos. Este foi o verdadeiro sonho de Zumbi, que valia o sacrifício e valeu a experiência como legado histórico para as lutas contemporâneas do povo brasileiro. O exemplo de Zumbi é vivo, hoje, não pelo aspecto guerreiro, mas pelo aspecto político. Afinal, sabemos todos que a guerra é uma dimensão terminal da política. Os milhares de quilombos que se organizaram nos 200 anos seguintes resistiram e enfraqueceram a escravidão, mas nenhum deles conseguiu formular um projeto de Estado e de sociedade alternativos à monarquia escravista. O movimento abolicionista, a partir dos anos 60 do século XIX, conseguiu mobilizar a mais ampla frente popular contra a escravidão, mas não produziu nenhum projeto político, social e econômico para o pós-escravidão. O que registra a nossa história é a inteira desarticulação do negro brasileiro no dia seguinte ao 13 de Maio. Sem projeto de sociedade, ficou dilacerado entre o projeto do Terceiro Reinado e o projeto da República, foi esmagado pelo imigracionismo e pela exclusão política e social, perdeu todos os aliados da véspera, virou um subcidadão.
Hoje, no momento em que o movimento negro brasileiro alcança vitórias importantes e que o governo da República incorpora de uma maneira sincera o compromisso com a igualdade racial, não podemos esquecer o exemplo de Zumbi. Não basta lutar contra o racismo e contra a exclusão social através de múltiplas políticas de ações afirmativas. É preciso construir um modelo político e econômico para o Brasil que consagre a igualdade racial. Como em Palmares, não basta lutar contra a desigualdade. Devemos construir o sonho da igualdade e da liberdade.
por  Ubiratan Castro - Presidente da Fundação Palmares

Fontes: http://www.grupoescolar.com e Fundação Palmares

sábado, novembro 13, 2010

A importância do Negro

Teodoro Sampaio


Teodoro Fernandes Sampaio (Santo Amaro da Purificação, 7 de janeiro de 1855 - Rio de Janeiro, 11 de outubro de 1937) foi um engenheiro geógrafo e historiador brasileiro.

Biografia
Nasceu no Engenho Canabrava, pertencente ao visconde de Aramaré, hoje pertencente ao município baiano de Teodoro Sampaio.

Era filho da escrava Domingas da Paixão do Carmo e do padre Manuel Fernandes Sampaio. Ainda em Santo Amaro estuda as primeiras letras no colégio do professor José Joaquim Passos. É levado pelo pai, em 1864 para São Paulo e depois para o Rio de Janeiro, onde estuda no Colégio São Salvador e, em seguida, ingressa no curso de Engenharia do Colégio Central. Ao tempo em que estuda leciona nos Colégios São Salvador e Abílio, do também baiano Abílio César Borges (Barão de Macaúbas), sendo ainda contratado como desenhista do Museu Nacional.

Formou-se em 1877, quando finalmente volta a Santo Amaro, na Bahia, onde nasceu. Ali, revê a mãe e os irmãos, e comprando, no ano seguinte, a carta de alforria de seu irmão Martinho, gesto que repete com os irmãos Ezequiel (1882) e Matias (em 1884). Por ser filho de branco, Sampaio nunca fora um escravo.
Em 1879 integra a "Comissão Hidráulica", nomeada pelo imperador Dom Pedro II, sendo o único engenheiro brasileiro entre estadunidenses.

Obras na engenharia
A convite de Orville Derby, que conhecera na expedição aos sertões sanfranciscanos, participa de nova comissão que realiza o levantamento geológico do Estado de São Paulo (1886).

Antes havia realizado o trabalho de prolongamento da linha férrea de Salvador ao São Francisco (1882). No ano seguinte é nomeado engenheiro chefe da Comissão de Desobstrução do Rio São Francisco, que deixa quando do convite de Derby para ir a São Paulo. Ali, dentre outra realizações, participa em 1890 da Companhia Cantareira (engenheiro-chefe), é nomeado Diretor e Engenheiro Chefe do Saneamento do Estado de São Paulo (de 1898 a 1903). Participou da fundação da Escola Politécnica, junto a Sales Oliveira e ao Coronel Jardim.

Institutos
Foi, em 1894, um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo; membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (1898), que presidiu em 1922; sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1902).

Em 1912 presidiu o V Congresso Brasileiro de Geografia.

Importância de Teodoro Sampaio
Teodoro Sampaio, que nasceu negro e filho de escrava, foi um dos maiores pensadores brasileiros de seu tempo. Engenheiro por profissão, legou-nos uma bibliografia de vasta erudição geográfica e histórica sobre a contribuição das bandeiras paulistas à formação do território nacional, entre outros temas. É formidável sua sofisticação na percepção da importância dos saberes indígenas (caminhos, mas não só) na odisséia bandeirante. Igualmente digna de consideração foi sua contribuição ao estudo de vários rios brasileiros, de pinturas rupestres em sítios arqueológicos nacionais, do tupi na geografia brasileira e da geologia no País. Neste campo, a geologia brasileira, participou de momentos marcantes, como a expedição de Orville Derby ao vale do rio São Francisco e de comissões específicas. Além disso, foi grande amigo de Euclides da Cunha, e auxiliou o escritor com conhecimentos sobre o sertão baiano na elaboração de Os Sertões.

Seu nome figura na memória intelectual do País ao lado de Capistrano de Abreu, Joaquim Nabuco, Nina Rodrigues e outros do mesmo patamar. Em sua memória, foram batizados dois municípios brasileiros (na Bahia e em São Paulo) e também uma importante rua da cidade de São Paulo.

Principais obras
• O rio São Francisco e a chapada Diamantina (1906)

• O tupi na geografia nacional (1901),

• Atlas dos Estados Unidos do Brasil (1908)

• Dicionário histórico, geográfico e etnográfico do Brasil (1922)

• História da Fundação da Cidade do Salvador (póstumo).

Os diários de Teodoro Sampaio
Os diários de Teodoro Sampaio (1855- 1937) estão arquivados no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB). Vale dizer que a conquista de um acervo tão precioso é mérito da atual presidente do instituto Consuelo Pondé de Sena.

Mas até hoje, o IGHB não conseguiu publicá-los por falta de apoio. Escritos a lápis eles correm o risco de perder a batalha para a ação do tempo e aí estarão fora de alcance partes preciosas da história de um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros.

Há, inclusive, em meio a estes diários, uma carta de sua autoria, emocionante, direcionada a um senhor de escravos. Theodoro diz que como está prestes a se casar e, portanto, "montando casa", não tem todo o dinheiro estipulado para a compra. O escravo em questão é seu irmão. Ele queria cumprir uma promessa feita à mãe.

Não se sabe se o proprietário de escravos fez "a caridade pela liberdade", como pede Theodoro. Mas em um outro trecho está anexada a carta de alforria de um outro irmão seu.
"As condições em que se encontram os documentos não permitem sequer a consulta. Só um técnico pode manipular os diários. Tem cópia dos documentos em CD Rom, pois isso conseguimos fazer, mas é necessária a restauração. Infelizmente, o IGHB não tem verba para pagar".

O IGHB é uma instituição privada, mas de utilidade pública e que tem um valioso acervo de livros, documentos e periódicos. Atualmente, recebe uma ajuda de custo do governo estadual de cerca de R$ 10 mil que, com os descontos, fica em R$ 8 mil.

Engenheiro, Theodoro Sampaio foi também historiador e geógrafo. Hoje dá nome a uma avenida em São Paulo, com reverências por lá maiores do que as que recebe em seu Estado de origem, a Bahia, de forma tal que há quem pense que ele é paulista.

Mas Theodoro nasceu em Santo Amaro. É certo que hoje existe um município baiano que leva o seu nome, mas acho pouco diante da sua vida e obra.

Era filho de Domingas da Paixão do Carmo, uma escrava de origem jeje. O padre Manoel Fernandes Sampaio assumiu a paternidade e lhe deu o sobrenome, mas segundo a historiadora Consuelo Pondé, ele poderia também ser filho de Francisco Antonio da Costa Pinto.

Teodoro Sampaio escreveu trabalhos como O Rio São Francisco e Chapada Diamantina e Viajantes Estrangeiros no Brasil. Não é segredo que Euclides da Cunha utilizou várias das informações geográficas coletadas por ele em Os Sertões, mas não lhe deu o crédito merecido. Fez apenas uma pequena observação sobre a contribuição em uma das edições do seu livro que virou clássico. Conta-se que Teodoro, que dirigiu o IGHB de 1922 a 1937, ficou magoado com o amigo, mas engoliu a omissão de forma discreta.

Não tão discreto ele foi em relação a um episódio de racismo explícito. Convocado para integrar a Comissão Hidráulica do governo brasileiro, que faria um estudo dos portos e das condições de navegalibidade do interior do país, foi o único do grupo a não ter seu nome divulgado no edital de convocação.

Ao ser apurado o episódio, a justificativa do funcionário de gabinete foi a seguinte: "Poderia causar constrangimento aos outros estar ao lado de um homem de cor". A comissão era coordenada por um engenheiro americano: William Milnor Roberts. A omissão foi reparada, mas a agressão a Teodoro já estava feita.
 Pesquisa de textos e imagem: Carlos Eugênio Marcondes de Moura
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